
14 DE AGOSTO, SEXTA-FEIRA, PÓVOA DE VARZIM
REPORTAGEM RTP:
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NOTICIA DA AGENCIA LUSA DIVULGADA EM MUITOS ORGÃOS DE INFORMAÇÃO:
Produtores dizem que vacas estão a comer fiado
2009.08.17 (00:00) PortugalCentenas de produtores distribuíram sexta-feira passada leite na praia da Póvoa de Varzim, em protesto pela crise no sector, que já deixou «muitos milhares de vacas a comer fiado», disse, Carlos Neves, representante dos jovens agricultores do distrito do Porto, reforçando que «muitos produtores começam a entrar em ruptura financeira. O que nos tem valido são as empresas que estão a fiar».
Os agricultores protestam contra as constantes descidas do preço do leite pago aos produtores que, depois de ter sido fixada em 25 cêntimos por litro, deverá sofrer, este mês, uma nova descida. «Já recebi uma carta da empresa que me compra o leite a avisar que em Agosto vai pagar menos, e nem dizem quanto. Não vale a pena, é melhor fechar», explicou Agostinho Silva, de 32 anos, produtor de leite de Vila do Conde.
Carlos Torres Maia, um produtor de leite que tem também uma empresa de venda de rações, alertou que «diariamente surgem situações de produtores a pedir fiado». Serão, nas suas contas, cerca de 50 por cento dos seus clientes, o que corresponderá a cerca de 70 produtores, mas está a aumentar «todos os dias». Assegurou, ainda, que «já há explorações a cortar na alimentação dos animais».
«Tudo o que estou a ganhar estou a dar às vacas. Quem está a sustentar os animais são os fornecedores e, com esta nova descida, isso pode até nem ser suficiente», lamentou Agostinho Silva, considerando que «o ideal» seriam estipular o preço de 40 cêntimos por litro de leite, porque «os produtores têm que viver».
Filipe Soares, de 27 anos, do concelho da Maia, afirmou que os produtores se preferem endividar e passar dificuldades a deixar os animais morrer à fome, mas alertou que se poderá chegar «à situação extrema de ter de abater as vacas para não as ver morrer à fome».
Admitindo que este é um problema de toda a Europa, Carlos Neves lamentou que o Governo português «faça promessas em vez de dar ajudas». O responsável pela AJADP referiu que, para venderem o leite nacional aos supermercados, as empresas de lacticínios «têm de baixar o preço que pagam aos produtores» e que, mesmo assim «os supermercados optam por importar leite, obrigando a indústria nacional a baixar os preços».
"A União Europeia (UE) decidiu acabar com as quotas de produção de leite na pior altura, na altura de crise", referiu Carlos Neves, acrescentando que a UE está a preparar o fim das quotas de produção de leite, tendo, para isso, aumentado a quota em cinco por cento, nos últimos dois anos. "O aumento foi maior do que o consumo e, assim, as quotas deixaram de fazer sentido e temos este sarilho", observou, concluindo que o problema vai resolver-se "da maneira mais dramática: as indústrias vão à falência, fecham, falta leite e o preço do leite sobe".
Também Agostinho Silva, produtor de leite de Vila do Conde, considerou que quer a crise quer a regulamentação comunitária "são culpadas" pelos problemas do sector. "O responsável é o bolo todo junto", sustentou. Carlos Torres Maia, por seu lado, não tem dúvidas de que a União Europeia tem de fazer alguma coisa pelos produtores de leite. "Ou a Europa toma medidas para mandar o leite em excesso para outros países, nem que seja a preços irrisórios, ou, em vez de aumentar a quota de produção, terá de a regredir", defendeu.
José António Teixeira, produtor de leite de Amarante, afirmou que a culpa é de todos: "Está repartida por todas as entidades envolvidas neste processo. São todos culpados", lamentou, referindo que os produtores estão a passar "muitas dificuldades". Agostinho Silva, por seu lado, criticou o ministro da Agricultura, que «nada tem feito para ajudar os agricultores», acrescentando que o sector envolve, directa e indirectamente, 100 mil postos de trabalho, sem que ninguém «ligue nenhuma» ao problema.
Depois de uma concentração de produtores e de tractores antigos, que pretendeu alertar a população para o facto de Portugal ter a agricultura mais envelhecida da Europa, os agricultores desfilaram na marginal entre a Póvoa de Varzim e Vila do Conde. O passeio serviu para distribuírem «mais de três mil litros de leite» aos veraneantes, tentando sensibilizá-los para que consumam leite nacional.
CONCENTRAÇÃO TRACTORES ANTIGOS
VER FOTOS DO DESFILE:
OBJECTIVOS:
- EXIGIR UM PREÇO JUSTO PARA A PRODUÇÃO DE LEITE
- RENOVAR O APELO AO CONSUMO DE LEITE NACIONAL
- EXPLICAR À SOCIEDADE AS RAZÕES DOS AGRICULTORES PARA ESTA E FUTURAS ACÇÕES DE LUTA
- EXIGIR A INTERVENÇÃO E AJUDA DO GOVERNO
- LEMBRAR QUE MESMO NAS FÉRIAS A PRODUÇÃO DE LEITE NÃO PÁRA E A NOSSA LUTA TAMBÉM NÃO...
contacto: ajadp@sapo.pt
ORGANIZAÇÃO: AJADP
COMUNICADO :
A 14 DE AGOSTO, O LEITE VAI À PRAIA
Dia 14 de Agosto, Sexta-feira, numa iniciativa dos jovens agricultores, com o apoio de várias organizações agrícolas, a luta dos produtores de leite vai da terra ao mar. Assim, pelas 11h30, teremos uma concentração de tractores antigos nos terrenos do futuro parque da cidade da Póvoa de Varzim, junto à rotunda que liga a Avenida do Mar (a primeira vindo da A28) ao Modelo e à Clipóvoa. Depois, a partir das 14 horas, realiza-se um desfile descendo até à praia e seguindo pela marginal até ao Castelo de Vila do Conde, regressando pelo mesmo percurso.
Em tempo de férias (que os produtores de leite não podem gozar) vamos ao encontro dos veraneantes tendo como primeiro objectivo agradecer publicamente aos portugueses que ouviram o nosso apelo e estão a consumir leite e produtos lácteos de origem nacional e agradecer também aos comerciantes que vendem e promovem os nossos produtos.
Por outro lado, queremos renovar a mensagem de “comprar português, cumprir Portugal”, porque o futuro dos produtores de leite e milhares de postos de trabalho em toda a fileira dependem do consumo de leite nacional, ao passo que a importação de sobras de leite a preço de saldo serve apenas o interesse de meia dúzia de portugueses.
A concentração e desfile dos tractores antigos, sendo uma inovação em “manifestações agrícolas”, é também a forma de transmitir várias mensagens: Explicar que a nossa situação é insustentável, porque estamos a receber o pagamento do leite ao preço de há 20 anos, quando os custos de produção eram muito inferiores; Lembrar que Portugal tem a agricultura mais envelhecida da Europa e apesar disso estivemos 4 anos sem receber apoios à instalação de jovens agricultores e aqueles que apresentaram projectos estão sem resposta há um ano ou com resposta negativa, em particular no caso do leite. E mostrar que a agricultura tem uma história, tem um passado, atravessa dificuldades mas pode ter futuro porque há jovens dispostos a trabalhar no sector mas precisam da colaboração dos consumidores, do comércio e do Governo.
Lamentavelmente, do Governo só tivemos orelhas moucas e promessas vãs. Não apoiou o investimento, aceitou o fim das quotas leiteiras e o seu aumento progressivo que lhe tiram valor imediato, ignorou os primeiros sinais de crise no sector, abriu uma linha de crédito que não serve a quem mais precisa e anunciou agora uma pequena ajuda sem dizer quando nem como a vai pagar. Por isso a revolta dos agricultores é cada vez maior e a luta vai intensificar-se até que o Governo perceba a gravidade da situação.