AMBIENTE E BEM-ESTAR ANIMAL -CONCLUSÕES DO SEMINÁRIO DE 30.3.2007

Conclusões do Seminário AJADP realizado em 30-3-2007:



O elevado número de participantes (cerca de 250 pessoas), demonstrou o interesse dos agricultores, em particular dos mais jovens, por estes temas.
O licenciamento das explorações leiteiras, actualmente em curso, pode implicar a remodelação ou construção de novas instalações. A AJADP considera que os agricultores, além do apoio técnico específico a que podem recorrer, devem também eles próprios ter uma boa formação sobre estes assuntos e visitar exemplos concretos antes de investir num estábulo onde pensam trabalhar nos próximos 15 anos. Nesse sentido, o seminário foi iniciado com uma intervenção de Luís Pereira, da Direcção da AJADP, que apresentou imagens com bons exemplos observados em visitas organizadas pela associação. Seguiu-se depois a intervenção do Dr Albano Cortez.

1. O CONFORTO DA VACA LEITEIRA COMO FACTOR DE RENTABILIDADE DA EXPLORAÇÃO

Apesar do Bem-Estar Animal (BEA) assumir foros de obrigatoriedade, o Dr. Cortez abortou o tema na perspectiva dos Benefícios do conforto sobre a rentabilidade da exploração, o que foi pedagógico e motivador para os participantes, em contraste com visões extremistas sobre o assunto que provocam desconfiança e rejeição entre os produtores de leite.
A primeira questão abordada foi o “descanso”, devendo o produtor “assegurar aos animais um local limpo, seco e confortável para se deitarem, sem impedimentos para se levantarem, de fácil acesso aos alimentos e água”. Desse conforto depende o número de horas que uma vaca permanece deitada, o que origina menos problemas de patas, mais produção de leite e mais duração da vida produtiva dos animais. Foi dado destaque à dimensão dos cubículos, formas das ferragens e tipos de camas possíveis (areia, serrim, tapetes, etc). Estudo realizados nos EUA e no Canadá comprovaram que a dimensão dos cubículos utilizados era pequena, o que é fácil de observar em Portugal.
O pavimento não deve ser abrasivo mas ter ranhuras, de forma correcta para facilitar a tracção. Também é importante ter inclinação suficiente para evitar humidades.
De uma boa ventilação e arejamento dependem a qualidade do ar e a temperatura. A vaca leiteira é sobretudo sensível ao aumento de temperatura, pelo que a vacaria deve ter uma orientação e aberturas que permitam a ventilação natural e “efeito chaminé”.
A água é o mais importante ingrediente para a produção de leite, pelo que o seu abastecimento em qualidade, quantidade e acessibilidade deve ser garantido. Deve haver um bebedouro facilmente lavável por cada 20 vacas, com 9-12 cm de perímetro por vaca.
A maternidade, o parque para as vacas de transição (pré-parto) e o parque de espera para a ordenha são outros espaços que não devem faltar e devem merecer a atenção do produtor. Em conclusão, “o conforto da vaca é um investimento obrigatório porque dele depende o aumento de produção, a longevidade produtiva do animal e a satisfação das nossas obrigações éticas para com animais por nós confinados a um determinado espaço”. A reter: As “vacas sofrem em silêncio; O leite é a ausência de stress”.


2. BOAS PRÁTICAS NA VALORIZAÇÃO DO CHORUME

Na sua intervenção , o Professor Henrique Trindade, da UTAD, começou por apresentar dados do projecto Green Dairy (Pecuária Verde), lembrando que por ano, uma vaca adulta produz chorume equivalente a 500 kg de Adubo nitro 20,5% (Azoto) e 250kg de superfosfato 18% (fósforo). Estes são valores médios, que podem variar com a dieta dos animais, tipo de instalações, etc, pelo que se recomenda analisar o chorume da fossa regularmente (pelo menos 1 vez/ano), saber as necessidades das culturas e do solo (análises dos solos) e registar as fertilizações efectuadas. Com estes dados pode ser definido um “plano de fertilização” que tenha em conta o valor efectivo do chorume aplicado de modo a não aplicar adubo desnecessário, com custos ambientais e económicos.
Novidade foi a informação que a adubação de cobertura também já pode ser feita com base numa análise rápida do teor em nitrato do solo, que pode ser executada pelos técnicos da cooperativa ou de outro fornecedor de adubo ao agricultor.
A redução dos maus odores e das perdas de amoníaco (NH3) durante a aplicação do chorume pode ser feita pela utilização de cisternas que incorporam directamente o chorume no solo. Como ainda nenhum agricultor ou prestador de serviços da região tem esse equipamento, a alternativa é distribuir o chorume com baixa pressão, eventualmente com o “prato invertido” e fazer a incorporação com charrua ou outra máquina imediatamente após o espalhamento.
Para o chorume poder ser bem utilizado e aplicado quando interessa recomenda-se ter uma capacidade de armazenagem de 5 meses. Relativamente a fossas a construir no exterior, recomenda-se a cobertura (para evitar a chuva que iria reduzir a capacidade de armazenagem) e promover a formação de crosta à superfície, o que reduz as emissões de amoníaco até 30%.
Estudos realizados demonstraram que a utilização de inibidores de nitrificação (os mesmo usados nos “adubos estabilizados”, para evitar a lixiviação do azoto), nos chorumes aplicados no Outono, à sementeira de azevém anual, permitiu duplicar a produção de azevém, sem utilizar adubo. Isto significa que o azoto, em vez de ser arrastado para as águas subterrâneas, foi exportado sobre a forma proteica no alimento para os animais. Espera-se que em breve estes aditivos estejam disponíveis no mercado a um preço competitivo para ajudarem os agricultores e o ambiente.

3. DEMOSTRAÇÃO DE INCORPORAÇÃO DE CHORUME COM CISTERNA HERCULANO

De entre os muitos contactos efectuados pela AJADP para fazer uma demonstração com um equipamento que já é comum no Norte de Europa, apenas a Herculano respondeu positivamente. Assim, uma cisterna de 14000 litros com sistema de incorporação por escarificador esteve exposta todo o dia 30 de Março em frente à cooperativa. Ao final da tarde, na hora prevista para a demonstração, após uma apresentação da empresa e do equipamento pelo Dr Nuno Duarte, director comercial e de Marketing da Herculano Alfaias Agrícolas S.A., foi feita uma breve demonstração do equipamento no terreno anexo à cooperativa. A chuva torrencial impediu então a continuação da experiência e a assistência dos agricultores.
Face ao bom tempo registado no dia seguinte, Sábado, e uma vez que a cisterna continuava cheia, procurou-se um terreno alternativo para a demonstração e avisaram-se os agricultores que foi possível através de SMS, já perto do meio-dia. Foram mais de 30 os que responderam à chamada para as 15 horas e, acompanhados pelo Engº Miguel Martins, da Herculano, observaram primeiro o equipamento na Casa das Povoas, em Fajozes, e depois o funcionamento num terreno próximo, propriedade de Carlos Maia.
Trata-se de um sistema que reduz efectivamente a emissão de odores e de amoníaco, mobilizando a terra. Parece interessante para utilizar após a cultura do milho, antes da sementeira da erva. Ficou a dúvida sobre o funcionamento em terrenos com erva cortada, já que se a erva for grande impede o funcionamento eficaz. Para esses casos (espalhamento em prados, por exemplo), a empresa está a desenvolver um sistema de discos que espera concluir nos próximos meses. São sistemas que exigem grande potência de tracção, o que limitará a sua aquisição apenas a empresas agrícolas de grande dimensão ou prestadores de serviços (cooperativas ou privados).
Esta iniciativa da AJADP foi também um desafio ao Ministério da Agricultura e ao Ministério do Ambiente para que se ocupem mais com a formação dos agricultores e divulgação de tecnologias limpas antes de os perseguirem com multas e licenças.
A AJADP agradece a todos os que colaboraram para o sucesso desta iniciativa, em particular à cooperativa de Vila do Conde, pela cedência do auditório, e à Caixa de Crédito Agrícola Mutuo de Póvoa de Varzim, Vila do Conde e Esposende, pelo patrocínio concedido.








Os apontamentos das intervenções do Dr Cortez e Prof. Henrique Trindade podem ser pedidos a ajadp@oninetspeed.pt



VÍDEO DA DEMONSTRAÇÃO: